quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O futuro dos nossos filhos

A crise nasce do medo, que devora o sentido do imprevisível.


Inês Pedrosa (www.expresso.pt)

A conversa trágico-tétrica sobre o modo como "o futuro dos nossos filhos" está assombrado pela alegada iminência de derrocada do Estado Social, etc., faz-me rir pela ingenuidade, pela presunção, ou pela conjunção explosiva destas duas características. Tive a sorte de ter tido um professor de filosofia que, quando lhe pedi conselho sobre a escolha do meu futuro, me disse (em 1979): "Escolha aquilo de que gosta, porque não adianta escolher o que parece seguro - não há certezas, tudo está a mudar muito depressa." O meu pai achava que o curso certo para uma pessoa calhada para as Letras - ou pelo menos totalmente descarrilada, para grande desgosto dele, na matemática - era Direito: uma coisa sólida que me daria acesso a um leque de profissões confortáveis. Zangou-se comigo quando escolhi o curso de Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa: todos os dias me declarava que estava destinada ao desemprego e à fome. O que aliás foi útil, porque me pôs a procurar emprego, e a encontrá-lo, aos 19 anos, no segundo ano da Universidade. Não foi fácil compatibilizar os estudos e o estágio no semanário "O Jornal". Não foi rápida a conquista de um salário - o estágio gratuito demorou um ano e meio, mas pelo menos quando acabei o curso já podia sobreviver sozinha, embora mal. Constatei que os meus colegas que tinham optado pela "segurança" do Direito passaram por muito mais dificuldades que eu - havia mais advogados do que clientes, além de que alguns deles definhavam de tristeza porque não tinham sequer gosto pela advocacia, o que os impedia de serem advogados excelentíssimos e, por conseguinte, de ganhar dinheiro.

Treze anos mais tarde, sucedeu-me um outro episódio de sorte - vertiginoso, que inicialmente me pareceu dramático: a revista onde eu trabalhava fechou, e não tive um só convite para trabalhar para outra publicação. Foi uma época iluminante: pessoas que até então me procuravam, anelantes, passaram a mudar de passeio quando me viam; o telefone, antes tão frenético, praticamente emudeceu (salvo raras e até inesperadas excepções). Tive oportunidade de fazer um doutoramento ad hoc e intensivo em relações humanas. Aprendi a fazer projectos e apresentá-los, como free-lancer. Ganhei confiança, inspiração, autonomia e liberdade. Desse modo, consegui tempo e alento para escrever, sem interrupções, o meu segundo romance, e depois vários outros livros. Isto é: consegui dedicar-me àquilo que, desde criança, era o meu sonho.

Quando entreguei o terceiro romance ao meu editor, ele convidou-me para um almoço à beira-mar para me prevenir, carinhosamente, contra o insucesso do livro - que lhe parecia (e era) demasiado diferente dos anteriores, excessivamente triste e complicado. Disse-me isto entre outras coisas muito elogiosas mas que, por isso mesmo, no seu entender, auguravam um rotundo fracasso. A anti-expectativa do meu editor fundava-se no seu aprofundado conhecimento do mercado e nos seus muitos anos de experiência. Futurava, naturalmente, com os dados de que dispunha, que lhe diziam que, numa época de crise (já havia crise, nesse ano de 2001), os leitores não só diminuiriam como rejeitariam inovações, buscariam leituras leves e de entretenimento, pelo que um livro em torno da morte não teria hipótese nenhuma. Explicava-me também que a crítica literária rejeitaria o livro porque o seu tom e estilo eram muito distintos dos livros em aclamação unânime naquele momento. Publicou o livro, por amor e lealdade, numa edição mais pequena do que o habitual. Esse livro de desgraça anunciada foi o mais bem sucedido dos meus livros, sob todos os pontos de vista (vendas, edições no estrangeiro, crítica). Permitiu-me comprar uma casa - coisa que nem eu mesma pensava possível, embora acreditasse no livro.

Esse mesmo editor teve outras experiências semelhantes: publicou "O Paciente Inglês", de Michael Ondaatje, por considerar o livro magnífico - e, durante uns anos, o livro ficou encalhado nas estantes das livrarias. Quando foi adaptado para o cinema e ganhou nove óscares, tornou-se um best-seller - e o editor, que até então seria considerado um lírico sem noção pelos supostos especialistas da gestão financeira, tornou-se, da noite para o dia, um génio, pela visão editorial que lhe permitira caçar antecipadamente (ou seja, a baixo preço) um autor de prestígio e com sucesso comercial.

O preço do petróleo pode deixar de importar. A vida não é previsível. O futuro dos nossos filhos também não - a não ser que o encolhamos de pânico, como agora estamos a fazer.

(roubado à descarada do blogue do meu amigo pedro, o tigre)

8 comentários:

Panda disse...

Como licenciada em Comunicação Social já no auge da crise alegrou-me ler o teu texto. Eu sempre trabalhei paralelamente ao curso mas dado que nunca pude ficar sem receber ordenado (não sou sustentada por ninguém desde os 17 anos) trabalhei sempre sem ser em Comunicação Social.
Na área pouco fiz porque os estágios gratuitos estão massificados e alongam-se e... eu não posso.
Eu estudei aquilo que gosto, não trabalho na área mas ter estudado algo que não se gosta e estar na mesma seria pior. Agora gostava de ter coragem para escrever, penso que já estive mais longe disso.
A ver se a aura da crise não nos persegue muitos mais anos.

efilipe disse...

Estou a olhar para o meu filho e a pensar no seu post. É a verdade pura. Um dia pensei no que queria ser, tornei-me educadora, lutei por isso e consegui. Neste momento (além da licença de maternidade) sou bombeira. Podia dizer socorrista, mas nem isso aparece no meu contrato de trabalho - "maqueira" foi a palavra escolhida, mas que nada tem a ver com as funções que desempenho.
Sou uma mulher feliz e realizada. Pode parecer estranho, mas sou. E sou porque todos os dias sonho. Tenho muitos sonhos e muitas coisas para realizar ainda... e pelo menos nisso a crise ainda não tocou.
A vida não tem sido fácil, mas estou feliz por ter sido capaz de vencer os problemas um a um, sozinha ou com ajuda, umas vezes rindo outras chorando, mas sempre com esperança de dias melhores.

Beijos e parabéns pelo post.

diafeliz disse...

Apetece-me mm dar os PARABÉNS a 2 pessoas: 1º a essa última jovem que escreveu. Mãe, Educadora, Bombeira/maqueira--GRANDE MULHER.-2º :Ao autor do texto donde (roubas-te) o artigo. Já agora, a ti obrigada por o teres transcrito.
Gosto daquela frase: Mais faz quem quer que quem pode ou: Para conseguir basta querer. Força aí juventude! Dos fracos não reza a história!

Rita disse...

este texto é da autoria da escritora e jornalista inês pedrosa!

Party Girl disse...

Bem, licenciada em CS e à beira do desemprego, isso tb me animou... isto e a frase que um amigo de longa data disse há uns tempos quando lhe disse que agora é que isto estava mal, porque estava tudo a fechar na área. Ele disse, ó mulher, mas não foi sempre assim nesta área. Em 10 anos quantos coisas fecharam e quantos abriram novas???


E é isso mesmo

diafeliz disse...

Sim ,Sim reparei depois.Que continue a escrever disto, devemos fugir do péssimismo e da lamechice o mais possível.

Helena Barreta disse...

Sou mãe de um estudante universitário que estuda na faculdade que ele escolheu (F.M.H.) e no curso que queria (Ciências do Desporto). Se tem saída, ou saídas? Não sabemos, mas esta pergunta não foi tida em conta aquando da escolha, nem tinha que ser. Sempre disse ao meu filho que estudasse aquilo que realmente gostasse e se visse, mais tarde, a fazer.

Um dia perguntei a alguém da família que estudava Matemática Aplicada, se estava a gostar do curso, respondeu-me que não, mas sabia que havia défice de professores de matemática. Nunca acabou o curso e não é professor, nem de matemática, nem de nada.

Também tenho para mim que deitar as culpas na crise não é motivo para não nos esforçarmos por alcançar e batalhar naquilo que queremos.

gralha disse...

Obrigada! Haja mais testemunhos optimistas :)