segunda-feira, 5 de março de 2007

Mia Couto

"Aconteceu logo a seguir à independência. Eu estava em véspera de viagem para o exterior e, na altura, não havia as facilidades de que hoje usufruímos. O mais que viajante poderia dispor era do chamado traveller cheque. Para se emitir um traveller cheque era uma batalha complicadíssima, era quase necessário que o pedido fosse conduzido ao Presidente da Republica. Eu ia viajar por imperiosas razões de saúde e faltavam escassas duas horas para o embarque de avião e ainda eu estava no balcão do Banco numa desesperada tentativa de recolher os meus pobres cheques. No momento, um funcionário vagaroso me disse algo trágico: que os cheques, afinal, precisavam de duas assinaturas, a minha e a da minha esposa. Ora, a minha mulher estava no Hospital e era não havia tempo para lhe levar os papéis. A única solução chegou-me no auge do desespero. Eu tinha que mentir. Disse ao funcionário que a minha esposa estava na viatura e que, em menos de um minuto, lhe traria os papéis já devidamente assinados.

Trouxe os documentos para fora do edifício e, à pressa, falsifiquei a assinatura da minha esposa. Fiz aquilo sob pressão dos nervos e sem ter à minha frente um modelo para copiar. A rubrica ficou péssima, era uma cópia ranhosa, detectável a milhas de distância. Regressei correndo, entreguei a papelada e fiquei à espera. O homem entrou para um gabinete, demorou um pouco e, depois, voltou com ar grave para me dizer: desculpe, há uma assinatura que não confere. Eu já esperava aquilo mas, ainda assim, desmoronei, sob o peso da vergonha. O melhor, pensei, é falar a verdade E já tinha começado a falar, é que, camarada, a minha esposa... quando o funcionário me interrompeu para dizer esta coisa espantosa: a assinatura da sua esposa está certa, a sua assinatura é que não confere. Como podem imaginar, fiquei sem palavra e passei os minutos seguintes ensaiando a minha própria assinatura ante o olhar desconfiado do funcionário. Quanto mais tentava menos era capaz de imitar a minha própria letra. Nesses longos minutos eu pensei: vou ser preso não por ter forjado a assinatura de uma outra pessoa. Vou ser preso por forjar a minha própria e autentica rubrica.

Nessa altura, perante os malfadados travellers cheques, eu senti essa experiência curiosa de alguém que é surpreendido em flagrante delito de ser ela própria. A verdade é que nós somos sempre não uma, mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa personalidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, o mais triste é ter mesmo que escolher.
"

3 comentários:

Maffa disse...

Adorei ritolas!

Nuno Fernandes disse...

Muito bom....não é por nada mas eu nasci no mesmo sitio que esse senhor :)

BlueAngel disse...

Este é um dos meus escritores preferidos!